Pessoas com Deficiência

DEFICIÊNCIA: UM HISTÓRICO DE EXCLUSÃO

A desvantagem social atribuída aos estigmatizados pela deficiência não é algo novo. Em Esparta, pelos idos do ano 700 a.C., as crianças portadoras de deficiências físicas ou mentais eram consideradas subumanas, e por isso eram assassinadas ou abandonadas ao relento. Já na Idade Média as pessoas que nasciam com alguma deficiência eram concebidas como fruto da união de uma mulher com o demônio, essa crença era usada como justificativa para queimar a mãe e a criança. Com a revolução burguesa, a relação de desigualdade com a deficiência  passa a ser influenciada diretamente pelo sistema econômico, no qual a produtividade passa a ser essencial para a manutenção desse sistema. Muitos fatores levaram à exclusão das pessoas com deficiência (PCD), seja porque não poderiam se tornar bons guerreiros como em Esparta; seja porque teriam uma alma demoníaca como na Idade Média; ou porque eram vistos como supérfluos e desqualificados para o novo sistema econômico de produção e consumo da modernidade, essas pessoas sempre encontraram grandes obstáculos para a vida em sociedade.

Segundo o senso do IBGE (2010), as pessoas com algum tipo de deficiência representam cerca de 24% da população. São aproximadamente 40 milhões de brasileiros na luta pela conquista de seus direitos e cidadania. Dessa luta emergem novos dispositivos legais para promover a inclusão dessas pessoas. Se por um lado essas políticas trazem importantes conquistas, a necessidade de criá-las denuncia a grande dificuldade que nossa sociedade ainda encontra para acolher as diferenças. Aceitamos ou apenas toleramos as pessoas com deficiência?

 

VOCÊ SABE QUEM SÃO AS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA?

De acordo com o decreto nº 3.298 de 20 de dezembro de 1999, é considerada Pessoa Portadora de Deficiência a que se enquadra nas seguintes categorias: Deficiência Física, Auditiva, Visual, Mental e Múltipla. No entanto, para compreender uma pessoa com deficiência é preciso mais do que avaliar se há alterações de um ou mais segmentos do seu corpo, se há perda total ou parcial de suas possibilidades auditivas e sonoras, qual é sua capacidade de acuidade e campo visual, se o seu funcionamento intelectual é inferior à média, ou se uma pessoa combina mais de uma dessas características. Os diagnósticos não devem funcionar como uma “sentença” para rotular as pessoas com deficiência, eles são importantes apenas como ponto de partida para discriminar positivamente suas necessidades e criar condições para as acessibilidades necessárias a sua mobilidade física e social. Para compreender quem é uma pessoa com deficiência é preciso transcender preconceitos, mitos e inverdades que ainda permeiam essa questão. Vejamos alguns deles:

Mito

  • Pessoas com deficiência necessitam de super-proteção
  • Pessoas com deficiência são doentes mentais
  • Pessoas com deficiência  são assexuadas ou hipersexuadas / são incapazes de manter um vínculo amoroso
  • Pessoas com deficiência não podem exercer atividade física

Verdades

  • Impedi-las de experimentar a vida é negar suas possibilidades de alcançar níveis cada vez maiores de independência e de autonomia
  • A deficiência é uma “condição” e não uma doença
  • O que comumente acontece é a ausência de adequada educação sexual e a interdição de sua sexualidade
  • Não se deve pré determinar limites, é preciso deixar que elas expressem suas capacidades

QUAL O NOSSO PAPEL NO PROCESSO DE INCLUSÃO?

A deficiência é constituída na estrutura social, ou seja, na experiência de segregação e opressão como resultado negativo entre um corpo com lesão e a sociedade.

As pessoas não deficientes geralmente ficam embaraçadas quando estão diante de uma pessoa com deficiência. Não se preocupe, é provável que muitas vezes elas se sintam assim também conosco, todos nós podemos nos sentir desconfortáveis diante do “diferente”. Essa sensação diminiu quando existem maiores oportunidades de convivência entre pessoas com deficiência e as pessoas sem deficiência.

Quando você encontrar uma pessoa com deficiência:

  • Não faça de conta que a deficiência não existe, precisamos levá-la em consideração. Entretanto, não o trate como um “diferente especial”, pois todos temos diferenças e todos somos especiais;
  • Coloque a deficiência entre parêntesis, pois a deficiência é apenas uma de suas características; olhe para a PESSOA que está na sua frente;
  • Leve em consideração as dificuldades dela sem subestimar suas possibilidades. Deixe que a pessoa com deficiência realize o que ela sabe fazer sozinha;
  • Quando quiser saber alguma coisa dela, dirija-se diretamente a ela sem utilizar interlocutores;
  • Sempre que quiser ajudar, ofereça a ajuda e espere sua oferta ser aceita antes de ajudar. E se você não se sentir seguro ou confortável para ajudar procure outra pessoa que possa fazê-lo;
  • Deixe que ela tome suas próprias decisões e assuma a responsabilidade por suas escolhas;

Não tenha medo de dizer ou fazer algo errado, a disponibilidade e a sinceridade são ótimas suplências para favorecer a autonomia e capacidade de criação das PCD. Se você chegar bem pertinho de uma pessoa com deficiência vai perceber que ela é como você, que você é como ela, que vocês são recortes do mesmo tecido. Pessoas que tem receios, sonhos e sentimentos, ela chora como você, e você sorri como ela! Cada qual com suas singularidades. Porque no fim, e o fim pode ser exatamento um outro início qualquer, todos nós:

temos o direito a sermos iguais quando a diferença nos inferioriza e temos o direito a sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza
Boaventura de Souza Santos